Escutem, agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e faremos negócios, e teremos lucros” (Tiago 4.13).
Para a correta compreensão do texto, é preciso levar em consideração que significativa parte do primeiro público de ouvintes/leitores de Tiago procedia do judaísmo e que o comércio era uma das atividades mais comuns dos judeus nas muitas colônias espalhadas pelo mundo greco-romano. Naquele tempo, novas cidades surgiam em ritmo acelerado, e seus fundadores convidavam negociantes judeus, uma vez que eles movimentavam o comércio e ajudavam a gerar riqueza. A reputação de competência comercial dos judeus atravessou os séculos e, em muitos lugares, ainda é lembrada.
A cena que Tiago retrata é fácil de imaginar: alguém abre um mapa, aponta uma cidade e apresenta um plano confiante aos sócios: “Vamos para lá, vamos ficar um ano, vamos negociar, e vamos lucrar”. Parece um discurso bem montado, com metas, prazo, estratégia e projeção de retorno. Mas há um problema por trás da segurança: o jeito de falar passa a impressão de que a pessoa é autônoma, autossuficiente, dona da própria vida, das circunstâncias e do futuro.
O ponto de Tiago não é atacar o planejamento em si. Planejar não é o erro. O erro é planejar como se Deus não existisse. Aqueles comerciantes faziam planos de expansão sem levar em conta duas realidades básicas: a fragilidade da vida e a dependência total que o crente tem de Deus.
Talvez o comentário mais duro e mais claro para essa postura esteja na parábola do rico tolo, contada por Nosso Senhor Jesus Cristo, na qual um homem faz planos para ampliar seus negócios e, justamente quando se achava no controle, ouviu a sentença: “Louco! Esta noite lhe pedirão a sua alma; e o que você tem preparado, para quem será?” (Lucas 12.20).
Tiago nos empurra para longe da ilusão de controle e para perto da dependência de Deus e da humildade.
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Por: Rev. Thales Renan Augusto Martins