“Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.” (Sl 1.6)
A poesia que abre o saltério trata da distinção entre justos e ímpios. Nada mais esperado, afinal, é precisamente essa distinção que permeia todos os cinco livros dos salmos.
Na verdade, essa é uma distinção presente nas páginas das Escrituras desde o relato da queda, quando o Senhor disse que duas sementes opostas habitariam a mesma terra, lutando entre si, até que a semente da serpente tivesse sua cabeça esmagada pelo descendente da mulher (Gn 3.15) – que sabemos, é Cristo, o justo.
A literatura de sabedoria se vale bastante do contraste entre justos e ímpios. Não apenas no Salmo 1, mas no 32, 36, 112 e outros, o justo é bem-aventurado, tem sua transgressão perdoada, farta-se em abundância, vê a luz do Senhor e habita em sua casa; o ímpio, por sua vez, não tem temor de Deus, transgride a lei, planeja o mal e range os dentes por inveja dos justos.
Isso tudo reflete o processo de bênção e maldição. O justo recebe bênção, ao passo que o ímpio recebe maldição. Mas note: isso não está atrelado a riqueza, saúde ou boas circunstâncias sempre. A bênção bíblica não é equiparável à bênção da deusa romana Fortuna, cuja manifestação de boa sorte era prosperidade de bens e prazeres. Aliás, dentre as diversas implicações da bênção de Deus na Bíblia, cito que ser abençoado é viver dignamente na presença de Deus, mantendo comunhão com Ele, sendo guiado por sua revelação (que já nos foi dada na Escritura) e não vivendo ansiosamente.
Inclusive, a metáfora utilizada no Salmo 1 ilustra os comportamentos díspares entre justos e ímpios no que tange à tranquilidade para viver: enquanto os justos são como árvores plantadas junto a ribeiros (Sl 1.3) _que obtêm direcionamento não a partir da opinião pública, de líderes humanos ou mesmo das últimas descobertas científicas, mas bebendo da fonte inesgotável da Palavra _ os ímpios são como palha que o vento dispersa (Sl 1.4), incertos, sem raízes.
Enquanto o justo é árvore firmemente plantada, o ímpio é palha levada pelo vento. Repare: o que caracteriza a conduta e os sentimentos dos ímpios é agitação, incerteza, inconstância. Por não ter revelação divina que o conduza, o ímpio trilha o caminho de sua vida de modo atabalhoado, lá e cá, tropeçando em amizades falsas, esperanças vãs, gastos efêmeros e, acima de tudo, falta de temor de Deus. Por conta disso, ele não consegue prevalecer na assembleia dos justos (Sl 1.5).
Os justos, por sua vez, trilham um caminho certo. Não sem dificuldades, tampouco sem tentações que os façam se preocupar. Apesar disso, não andam ansiosos por coisa alguma (Mt 6.25), pois sabem que o Deus da aliança os conduz, dando-lhes tudo de que necessitam.
Portanto, os justos são bem-aventurados. Seu caminho é conhecido por Deus e aprovado por Ele. E tudo isso é possível porque o descendente da mulher – Jesus, o justo _, trilhou o caminho da justiça em favor de seu povo. Com isso, permitiu que os crentes “prevalecessem no juízo” (Sl 1.6) não por seus méritos, mas pelos dEle. Ele, que é conhecido pelo Pai e o conhece plenamente, permitiu-nos conhecê-lo e termos nosso caminho conhecido por Ele também.
Se pela justiça de Cristo você foi declarado justo diante do Senhor, é bem-aventurado e deve desfrutar uma vida na presença dEle. Alegre-se!
Foto: Magnific.com
Por: Estevam Herculano de Almeida Machado